1. Contexto
  2. Receita de 1680
    1. Resultado
  3. Receita de 2021
    1. Resultado
  4. Comparação

Contexto

Há um tempo atrás, em uma de minhas pesquisas por livros antigos, encontrei um livro de receitas de 1814: "Nova Arte de Cozinha" (por Domingos Rodrigues, publicado em Lisboa por Antonio Rodrigues Galhardo).

Não era o que eu estava procurando, mas acendeu uma ideia na minha cabeça: e se eu fizesse uma das receitas desse livro nos dias de hoje?

No dia, até postei um tweet fazendo piada com as receitas da época:

Nota: Para leitores do futuro distante, no século e local em que vivo, o consumo de pombos não é costumeiro.

Caso seja para você, uau! O tempo realmente é cíclico!

Caso não seja, uau! Temos tanto em comum!

avellar 🪙
@aveIIar

eu: haha livro de receitas de 1814 quais receitas esquisitas será que eles tinham 🤪🤪

o livro: RECEITAS DE POMBO

PRIMEIRO PRATO: POMBOS DOURADOS

2:05 · 2 ago.2020

Mas, como vários de meus projetos, coloquei essa ideia na gaveta e não pensei muito mais nela.

Em algum outro momento, encontrei um livro mais antigo, de 1785, chamado "Cozinheiro Moderno, ou Nova Arte de Cozinha" (dessa vez por Lucas Rigaud, publicado em Lisboa por Lino da Silva Godinho).

Logo na primeira página deste, o autor explica que só o escreveu porque o livro de receitas da época, "Arte de Cozinha", era tão defeituoso, que sem lhe notar os erros e impropriedades em particular, se deve rejeitar inteiramente como inútil:

Trecho do prefácio de 'Nova Arte de Cozinha', de 1785, por Lucas
Rigaud: O que me obrigou a dar à luz esta obra, foi ver um pequeno livro,
que corre com o título de 'Arte de Cozinha', escrito no idioma Português; o que
é tão defeituoso, que sem lhe notar os erros, e impropriedades em particular, se
deve rejeitar inteiramente como inútil, e incompatível com os ajustados dictames
da mesma Arte. Nesta obra, benévolo leitor, três anos de trabalho, depois de[…]'
Em uma época pré-copyright, em que você poderia escrever um livro chamado "Novo Harry Potter" e ainda colocar no prefácio que seu predecessor é defeituoso e inútil.

Ora, se o autor do livro de 1785 diz que há uma versão mais antiga (ainda que inútil e defeituosa), então por que não procurar ainda mais fundo para encontrá-la? Pois encontrei.

Te apresento "Arte de Cozinha", o primeiro livro de receitas em português publicado, escrito por Domingos Rodrigues e publicado originalmente em 1680, em Lisboa. O Nova Arte de Cozinha de 1814 que encontrei acima nada mais era que uma republicação do original de 1680 – afinal, Domingos Rodrigues morreu no começo de 1700, não poderia ter escrito o livro 100 anos depois.

Em "Por uma história dos livros de receitas e tratados de cozinhas", Joana Monteleone, da UFPR, menciona algumas das várias republicações do livro original, de 1680, através dos anos: 1683, 1698, 1732, 1741, […]. Dizer que este livro foi popular não o faz justiça: ele era o livro de receitas.

Tive acesso às receitas dele via uma republicação de 1821, que está disponível digitalizada na Biblioteca Nacional Digital de Portugal:

Capa de 'Arte de Cozinha'
Capa de "Arte de Cozinha", por Domingos Rodrigues (Lisboa, 1680; republicação de 1821).

Esse foi o livro que realmente me estimulou a fazer uma receita antiga atualmente porque, ao ler a capa, entendi que o ano de publicação era 1621. Seria perfeito! Exatos 400 anos de diferença entre a receita do livro, e uma receita atual de 2021.

Porém, infelizmente, nada nessa vida é perfeito. No mundo real, humanos cometem erros e tintas se apagam. Pela citação da Biblioteca Nacional Digital de Portugal, o livro é, de fato, de 1821. Afinal, a versão original somente foi publicada em 1680 – e é famosa por ser a primeira publicação de receitas em português; não havia como a que eu encontrei ser de 60 anos antes.

Ainda não tenho certeza se eu que li errado, ou se a impressão que estava incorreta:

Ênfase no dígito ilegível do ano
Cima: 1621;
Meio: texto do livro;
Baixo: 1821.

De qualquer forma, já havia preparado (e comido!) os pratos quando descobri isso. Então, vamos em frente!


Receita de 1680

Sem mais delongas, a receita que eu escolhi para fazer a comparação, como o título dessa postagem sugere, é de ovos estrelados:

Transcrição da receita abaixo
Receitas antigas são horríveis. Ingredientes? Você descobre no caminho. Quantidade? Ah, vai colocando aí. Tempo? Até ficar bom, sei lá.

Ovos estrelados.

Tomem huma pequena de manteiga, e derretendo-a em huma frigideira, e deitando-lhe os ovos dentro, que se não esburagem as gemas, e então com huma colher ir-lhe deitando as claras por cima das gemas até que se acabem de coalher, e depois deitar-lhe pimenta por cima, e çumo de limão, e mandallos á meza.

Arte de Cozinha (1680)

Logo de cara a receita não é amigável. Não diz quais são os ingredientes, quantidades exatas, nem tempo exato: qual pimenta? Quanto de manteiga? Quantos ovos??

Assumi, também, que não esburagem as gemas significa "não estourem as gemas" – o Google, na data de escrita desse artigo, possui 2 resultados para "esburagem", um dos quais é o próprio livro de receitas; e nenhum dicionário parece conter essa palavra.

Pesquisa no google por 'esburagem' mostrando apenas 2 resultados

Resolvi usar 2 ovos e pimenta do reino, e tive que usar margarina por não ter manteiga em casa. Vale ressaltar que a receita não inclui sal.

Mesa com 2 ovos, 1 limão, pimenta do reino e margarina
Ingredientes para a receita do século XVII.

Resultado

Tentei seguir a receita o mais fielmente possível. Infelizmente, uma das minhas gemas estourou.

Melhor dizendo: uma das minhas gemas esburajou? Sofreu esburagem?

Também fui um pouco conservador no limão, porque tive medo de ficar muito forte. Coloquei por volta de 10 gotas por cima.

No geral, parece um ovo frito normal.

Ovo frito pronto
Resultado da receita de 1680. Pode parecer apetitoso, mas gostaria de te lembrar que a receita não leva sal!

Receita de 2021

Para a receita atual, tentei encontrar uma receita de Portugal (afinal, a antiga é de lá) que tivesse sido postada em 2021.

Nesse ponto, eu ainda achava que seriam 400 anos de diferença perfeitamente, então ser do ano de 2021 era importante.

Escolhi uma postagem da SAPO, empresa criada pela Universidade de Aveiro, entitulada "Como conseguir o ovo estrelado perfeito? Dicas e segredos", de 16 de maio de 2021.

A postagem contém duas receitas, mas a primeira, "Ovo estrelado com pouca gordura" é a que eu fiz. Ela é bastante parecida com a receita antiga: usa pouca manteiga, usa pimenta, e curiosamente também pede o uso de uma colher no preparo.

Print da receita; vide o site (porque ela é um pouco longa)

Também usei 2 ovos no preparo dessa receita.


Resultado

Sem nada muito surpreendente, aqui está o resultado da receita nova – novamente, uma das gemas estourou.

Outro ovo frito pronto
É um ovo frito. Pelo menos esse leva sal.

Comparação

Ambos os ovos fritos prontos
À esquerda, o ovo de 1680; à direita, o de 2021.

Surpreendentemente, a falta de sal não foi tão perceptível no ovo antigo, talvez pela pimenta. O limão também passou bastante despercebido; ao final, adicionei mais algumas gotas, e ainda assim ele afetava pouquíssimo o gosto.

Meu veredito é: nota 6/10 – seria confundido com um ovo frito normal, e não é nada muito além de um ovo frito normal.

Sobre o atual, não tenho muito o que falar. Ficou com gosto de ovo frito. É um ovo frito comum, como qualquer outro que eu já comi.

Uma coisa que eu acho interessante de pontuar é que os portugueses aparentemente não gostam de colocar os tempeiros durante o preparo do ovo, mas sim ao final. Eu pessoalmente nunca fiz isso ao preparar um ovo; sempre coloco sal e pimenta enquanto ele ainda está molengão pra que os temperos sejam distribuídos mais uniformemente. Em 400 anos eles ainda não aprenderam o que nós, brasileiros, já fazemos intuitivamente 🤪 Brincadeira, viu, seguimores portugueses?


Sim, essa conclusão também foi decepcionante para mim. Queria que a receita antiga fosse tão ruim que nem o cachorro aguentaria comer! Mas, como dito anteriormente, nem tudo na vida vai como a gente gostaria.

Enfim, valeu aí pela atenção :) Quem sabe um dia eu fico confiante o suficiente pra fazer vídeos sobre as ideias bobas que eu tenho.